Fábrica de Idéias


Festival do Rio 2005 - Brasileirinho

 

BRASILEIRINHO (Meus comentários e análise sobre o filme)

"Brasileirinho" é um documentário dirigido pelo finlandês Mika Kaurismäki e parte de uma idéia central simples: retratar o choro, gênero musical genuinamente brasileiro. E assim como a temática simples, o início do filme também é: o Trio Madeira Brasil decide fazer um show no Teatro Municipal de Niterói e seleciona alguns convidados ilustres relacionados ao mundo do choro. São mestres do quilate de Zé da Velha & Silvério Pontes (a menor "big band" do mundo), Zezé Gonzaga, Ademilde Fonseca, Teresa Cristina, Henrique Cazes, Yamandú Costa (numa sensacional interpretação de "Brejeiro", de Ernesto Nazareth), Guinga, entre outros. Durante o filme, os "convidados" comentam a influência do Choro (ou Brazilian Jazz para os estrangeiros) na MPB brasileira. o documentário culmina no próprio show, em Niterói, com a presença de todos.

O segredo deste documentário é a excelente trilha sonora e a espontaneidade de artistas que não são tão conhecidos pelo grande público, mas que na eterna rivalidade estética entre "conteúdo x forma", se sobressaem como poucos. O espectador sente-se cúmplice da emotividade que sobressai da tela do cinema. É também didático ao explicar a origem do genero musical.

Fica a torcida pelo breve lançamento em DVD e CD.



Escrito por Fabrício às 22h49
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Festival do Rio 2005 - Habana Blues

  

HABANA BLUES - (Meus comentários e análise sobre o filme)

 

Ontem fui assistir Habana Blues no Cine Paissandu, do diretor espanhol Benito Zambrano, numa co-produção Espanha/Cuba/França. Estreei no Festival desse ano vendo “Crash – no limite” e “Querida Wendy”, no sábado e ontem fui ver também “A Máquina”, filme brasileiro de João Falcão, no Odeon BR. Mas sobre esses três filmes prefiro postar em outra oportunidade, pois Habana Blues merece um post inteirinho dedicado a ele.

 

Bem, pra inicio de conversa, Habana Blues conta a história de dois jovens músicos cubanos, Ruy e Tito, que têm um sonho em comum: o de ficarem famosos e saírem de Havana. Enquanto preparam seu primeiro grande show, descobrem que dois produtores espanhóis estarão buscando talentos cubanos, e percebem então que aquela pode ser uma oportunidade única para sair de Havana e mudar de vida.

 

Antes de mais nada, é recomendável para quem for assistir, não esperar algo como um novo “Buena Vista Social Club”, filmaço-documentário produzido na mesma Havana alguns anos atrás. Pelo contrário, a trilha sonora não envolve jazz, boleros ou até mesmo rumbas/mambos. O que vemos é o primeiro sinal de originalidade abordado pelo diretor, que, como cita uma das personagens no filme, mostra “a Cuba oculta que ninguém vê”: o rock cubano (misturado com Blues, hard e trash). Onde que poderíamos imaginar que essas influências estariam presentes em Cuba?

 

Zambrano farta-se de utilizar a figura da metalinguagem quando retrata o cotidiano caribenho, com suas dificuldades sócio-politico e econômicas. Nesse ponto, o filme cumpre com perfeição ao papel que se propõe, que é mostrar a luta de dois músicos dentro de um Regime de censura e racionamento. Reparei a abordagem bastante criativa sobre as mazelas da sociedade cubana, sem apelar para o discurso político barato ou de erguer bandeiras em prol do capitalismo ou socialismo. Longe disso: a metalinguagem (olha ela aí de novo) deixa o espectador raciocinar por si só durante o filme e subliminarmente chegar as suas próprias conclusões.

 

Outra coisa que vi andarem muito juntas é a proximidade entre o Realismo Sujo (estilo literário inaugurado pelo escrito cubano Pedro Juan Gutierrez – um dos meus favoritos, autor de obras-primas como “Trilogia Suja de Havana”, “O Rei de Havana” entre outros). Algumas personagens de Habana Blues parecem saídas dos livros de Pedro Juan, como por exemplo a amiga de Caridad (Yialene Sierra), que diz que prefere ser “prostituta” a ter que vender a dignidade se curvando ao imperialismo americano; Os músicos que vendem produtos no mercado negro para sobreviver; O Malecón e a vida regrada a rum, sexo e as dificuldades impostas pelo racionamento; Os balseiros que tentam ultrapassar os obstáculos do regime pelo mar... enfim, tudo isso coincide no filme e no livro. Aliás, sobre a personagem de Caridad, fazendo uma análise mais minuciosa, posso dizer que ela representa a antítese de tudo que foi até então representado na figura da mulher cubana (ate então conformada com os problemas do Regime). Caridad, pelo contrário, seria um anátema diante dos dirigentes cubanos, pois retrata uma mulher lutadora, inconformada com a pobreza e vislumbra ascender socialmente, nem que para isso tenha que fugir com dois filhos para os EUA.

 

Valeu mesmo a pena, dou nota 10 ao filme, que só estréia no circuito oficial de cinemas em Novembro (este do Festival do Rio foi apenas uma pré-estréia). E o CD, cujo repertório está muito bom, já está a venda, nas lojas.

 

 Habana Blues foi o filme de encerramento na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes de 2005.

 

By Fabrício



Escrito por Fabrício às 15h19
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Festival do Rio 2005

Vai começar o FESTIVAL DO RIO 2005...

Prometo postar aqui meus comentários sobre os filmes... pretendo ver 17 filmes, que já reservei antecipadamente (e preventivamente) no ...



Escrito por Fabrício às 14h18
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Teresa Cristina - O Mundo é meu lugar

Além da Lapa

 

13.09.2005 |  No samba, chegou a hora do “vamuvê”. Tá certo, é bom cantar “Aquarela brasileira” de cervejinha na mão, com o pessoal da firma. É ótimo ir à Lapa para ver as meninas e ter a honra de uma contradança. É sensacional que as meninas cantem mais Geraldo Pereira do que Felipe Dylon. Mas e daí? Para onde vai essa entidade chamada “nova geração” do samba? O que se faz com tanto passado, com tanta história? Abre-se um museu? Um parque temático?

De forma cada vez mais firme, Teresa Cristina tem dado a melhor resposta a todos estes impasses. Em dois discos solo, mostrou que não está na Lapa a passeio: no duplo “A música de Paulinho da Viola” (2002) afirmava técnica apurada como intérprete; em “A vida me fez assim” (2004) apresentava suas consideráveis credenciais de compositora. “O mundo é meu lugar”, que sai agora com DVD também gravado ao vivo no Teatro Municipal de Niterói, de certa forma sintetiza os dois anteriores e vai adiante: Teresa deixa inteiramente de lado uma certa assepsia, que sempre soou para mim como uma trava, para se jogar, inteira, num disco não menos do que excelente.

O primeiro dos muitos êxitos de “O mundo é meu lugar” está em espanar do “disco ao vivo” os fantasmas de requentamento e diluição. Nas mãos firmíssimas de Paulão 7 Cordas, que assina direção musical, um repertório extenso (24 músicas) se encaixa sem folgas, em arranjos cheios de detalhes para o grupo Semente – Pedro Miranda (pandeiro e voz), Bernardo Dantas (violão), João Callado (cavaquinho) e Trambique (percussão), ótimos como sempre – e convidados luxuosos: Esguleba e Paulinho do Pandeiro na percussão, sopros de Rui Alvim e coro de Cristina Buarque e Alfredo Del Penho.

E se Teresa Cristina tem aqui sua melhor performance em disco é muito pela qualidade e variedade deste repertório. Oito das músicas são assinadas por ela, seis regravadas de “A vida me fez assim” e duas novas: “Pra cobrir a solidão” (com Zé Renato) e “Cordão de ouro” (com Roque Ferreira). Com pouco tempo de vida, sambas como “Candeeiro” e “A vida me fez assim” ganharam um peso extraordinário: são, desde já, standards que mostram que o lastro do bom samba não depende da “mania de passado” e, tampouco, de cacoetes modernosos. Como compositora, Teresa cultiva a beleza do clássico, serena, bem esquadrinhada, elegante.

Nas demais faixas, o clima predominante é de uma noite na Lapa combinada com um concerto. É disco para dançar e para ouvir, para festa e para os sussurros do i-pod. É um achado a seqüência (e não pot-pourri) de “Meu guri” e “Com a perna no mundo” – belo samba de Gonzaguinha que sintetiza um pouco o espírito do disco: tem levada de samba-enredo e costura fina de música de câmara. “Pra que discutir com madame”, mais uma das pérolas que ficamos devendo aos ouvidos atentos de João Gilberto, também ganha uma leitura elegante, que minimiza um bocado o excesso de repetição da música – o que não é culpa de ninguém, só de seu apelo irresistível.

Paulinho da Viola está presente em boas versões de “Onde a dor não tem razão”, “Coração leviano” e “Coração imprudente”, e Pedro Miranda traz para o disco um hit das rodas de samba, “Já era”, de Mauro Duarte. Em dueto com Teresa, ele também tem boa participação em “Cem mil réis” (Noel Rosa) e “Se eu pudesse” (Garmano Augusto e Zé da Zilda). Na lista de clássicos, Clara Nunes é homenageada com um dos melhores Candeia, “O mar serenou”.

“O mundo é meu lugar” é bom por tudo isso e pelo que não está nele: uma Teresa Cristina cada vez mais firme, cantando bonito, com alma e, o que é melhor, compondo muito bem. Não deixa de ser um privilégio ver uma artista se formando, aos poucos, com cuidado, com avanços e recuos. É por isso que, a cada faixa do disco, fica inevitável a lembrança do palquinho apertado e charmoso do bar Semente e das noites entulhadas de gente no Carioca da Gema: nestes dois palcos cariocas, nasceu mesmo uma estrela.



Escrito por Fabrício às 10h23
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Ainda sobre "A Batalha de Argel", encontrei outro artigo interessante sobre o filme:

"Um jovem filme de 40 anos". 

 

 

Ricardo Calil, No Mínimo (02/09)

 

Se o mundo fosse um lugar decente, “A Batalha de Argel” (1965) poderia ter se tornado um filme datado. Mas, como não o é, esse clássico do cinema político, relançado hoje no Rio de Janeiro em cópia restaurada, continua tão atual hoje quanto na época de sua realização.

Dirigido pelo italiano Gillo Pontecorvo, o filme retrata o levante da Frente de Libertação Nacional (FLN) contra a França pela independência da Argélia, ocorrido entre 1956 e 1957. A narrativa se concentra na figura de Ali-La-Pointe (Brahim Haggiag), que passa de pequeno ladrão a líder da FLN, sob as ordens do comandante El-hadi Jaffar (Saadi Yacef), e termina como o último remanescente da rebelião combatida pelo coronel francês Mathieu (Jean Martin).

Os paralelos entre a Argélia dos anos 50 e o Iraque de hoje são evidentes. No filme, há um país muçulmano ocupado por uma nação ocidental, grupos de resistência que promovem ataques terroristas para minar o inimigo e invasores que contra-atacam com métodos de tortura para obter informações de suspeitos.

Apesar das diferenças históricas entre as duas situações (o Iraque foi invadido pelos EUA; a Argélia, colonizada pela França), as semelhanças pontuais são tantas que o Pentágono convocou seus funcionários para uma sessão de “A Batalha de Argel” dois anos atrás, com a seguinte mensagem: “Como ganhar uma batalha contra o terrorismo e perder a guerra de idéias. Crianças atiram em soldados à queima-roupa. Mulheres plantam bombas em cafés. De repente, toda a população árabe entra em louco fervor. Soa familiar?” A sessão ajudou a alavancar o relançamento do filme no mundo todo – finalmente, um motivo para agradecer ao governo americano.

Mas resumir a atualidade do filme aos pontos em comum com a guerra do Iraque seria diminuir o talento de Pontecorvo. “A Batalha de Argel” continua atual sobretudo porque é grande cinema. O diretor adotou um estilo próximo ao documental , com filmagens em locais reais da batalha, atores amadores (Martin é a única exceção), câmera na mão, fotografia em preto-e-branco granulada e lentas teleobjetivas (que reforçam a proximidade com os personagens). O filme coloca o espectador dentro de seus eventos e atinge um grau de realismo poucas vezes igualado no cinema – tanto é que na época de lançamento o filme vinha com o aviso: “Nenhum material jornalístico foi utilizado nessa produção”.

“Batalha de Argel” também impressiona pelo equilíbrio no tratamento dado aos argelinos e franceses. Sem dúvida, o filme adota o ponto de vista da FLN, apresentando seus líderes como guerrilheiros que recorrem ao terrorismo para combater a dominação francesa, mas nunca como terroristas insanos. Afinal, o roteiro foi baseado nas memórias de Saadi Yacef, que produziu o filme e fez um papel muito parecido ao seu na vida real, o de líder do movimento de independência.

Na época de lançamento, o enfoque do filme já era algo difícil de ser aceito. Apesar de ter ganho o Leão de Ouro no Festival de Veneza e ser indicado a três Oscar, o filme ficou proibido na França e também no Brasil da ditadura militar durante muitos anos. Hoje, seria impensável uma produção desse porte sob o prisma de um movimento que utiliza métodos terroristas.

Por outro lado, “A Batalha de Argel” apresenta o lado francês sem revanchismo. De longe, o personagem mais complexo do filme é o coronel Mathieu, que comanda as tropas francesas com uma radical lógica cartesiana, expressa em frases como: “Para combater o terrorismo, é preciso aceitar todas as conseqüências”. Ou ainda: “Se os franceses querem ficar na Argélia, lidar com a revolta é o preço”.

As imagens do filme revelam a crueldade dos dois lados com a mesma crueza. Mas a música desequilibra a balança a favor da FLN. A trilha composta por Ennio Morricone e Pontecorvo quase sempre é mais sentimental quando os argelinos são as vítimas. No lançamento, a seqüência mais celebrada do filme foi aquela em que as torturas praticadas pelos franceses são apresentadas ao som de Bach. Hoje, ela parece a mais fraca do filme, justamente porque toma um partido de maneira um tanto óbvia, transformando os guerrilheiros em mártires.

De resto, porém, “A Batalha de Argel” mostra uma equanimidade que poucos filmes ocidentais podem ostentar. E consegue como poucos dar conta dos muitos aspectos de uma guerra: os combates armados e os de informação, a mentalidade militar e a guerrilheira, a importância da opinião pública e dos intelectuais. Tudo isso transforma “A Batalha de Argel” em um filme de 40 anos tão novo quanto sua bela cópia restaurada."



Escrito por Fabrício às 14h45
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Cinema Político e Espetáculo

Pontecorvo constrói libelo anticolonialista

INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA


 

Nos poucos filmes que fez, o italiano Gillo Pontecorvo procurou associar cinema político e espetáculo com resultados animadores o bastante para que em seu "Queimada" (1969) tivesse como protagonista ninguém menos que Marlon Brando.

"A Batalha de Argel" não trabalha com nomes célebres, mas isso não pesa contra o resultado final. Ao contrário, com este filme Pontecorvo ganhou o Leão de Ouro de Veneza.

É verdade que "A Batalha de Argel" nunca passou pela garganta dos franceses, o que talvez se deva menos a opções estéticas do realizador do que ao fato de a Guerra da Argélia ser um assunto mais que delicado em Paris e adjacências.

Pontecorvo, verdade seja dita, não está preocupado em denegrir os gauleses. Seu negócio é demonstrar que o colonialismo é uma instituição historicamente destinada à derrota. Hoje, qualquer um se acha no direito de desfazer do determinismo histórico dos marxistas, mas o fato é que a coisa deu certinho no caso do colonialismo.

As revoltas nacionais, na Ásia e na África, venceram os colonialistas no pós-Segunda Guerra -França, Inglaterra, Portugal tiveram, cada qual a seu tempo, de enfiar o rabo entre as pernas e deixar suas colônias.

Por quê? Eis o que Pontecorvo busca explicar, especialmente na banda de som, enquanto sua banda de imagem traz o espetáculo da guerra anticolonial gloriosa.

Como a França perde a Argélia, não por incompetência militar -o filme procura demonstrar o exato inverso-, mas por força de uma incontornável determinação histórica.

De certa forma, o raciocínio do filme era: se funciona com o colonialismo, funciona com o resto também. Sabemos que a segunda parte do postulado -aquela que estava nas entrelinhas, referente à conquista do poder pelo proletariado- nunca foi por diante. Mas o filme permaneceu, apesar disso, íntegro, como expressão da luta por Argel tal como vista pelos argelinos (pois o filme é uma produção argelina), mediada por um diretor italiano e esquerdista.

Íntegro, ou seja: nesse momento em que os EUA sofrem o diabo no Iraque, "A Batalha de Argel" oferece uma analogia no mínimo sedutora, em sua força didática: ocupar o país dos outros não dá pé. É, de resto, documento de uma época em que a transformação do mundo era uma ambição de esquerda e o cinema era a grande arte do século 20.

Ambos -cinema e esquerda- sonhavam alto, eventualmente juntos. Restou "A Batalha de Argel" como exemplo desse espetáculo político feito de imagens grandiosas e raciocínios sofisticados, ainda que talvez enganosos. De todo modo, algo muito mais animador do que a política do espetáculo feita de imagens banais, raciocínios rasteiros e aspirações não raro torpes -a que cotidianamente estamos expostos.


A Batalha de Argel
La Battaglia di Argeli
 
   
Direção: Gillo Pontecorvo
Produção: Itália/Argélia, 1966
Com: Brahim Haggiag, Jean Martin
Quando: a partir de hoje no Espaço Unibanco 2



Escrito por Fabrício às 11h39
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Política de Segurança Pública

Concordo com o que ele diz...

25/08/2005 - 16h28m

'Em vez de passeata pela paz, deveriam pedir o fim do consumo de maconha'


Larissa Morais - O Globo, 26/08/05


RIO - Não basta pedir paz. Para o secretário de Segurança Pública do Estado do Rio, Marcelo Itagiba, a sociedade civil deveria fazer um movimento corajoso pelo fim do consumo de drogas como a maconha e a cocaína. Afinal, é a disputa entre traficantes pelos principais pontos de venda de tóxicos que provoca boa parte dos problemas de segurança da cidade.

- Por onde passa, a droga deixa rastros. O pobre viciado assalta para pagar o traficante. O rico paga seu vício, mas alimenta o tráfico. O efeito colateral do uso da droga vitima toda a sociedade, disse o secretário, em entrevista exclusiva ao Globo On Line.

- As pessoas fazem passeata pela paz, mas não fazem uma propondo: vamos parar de fumar maconha, vamos deixar de cheirar cocaína. Quando a droga era coisa de negro, pobre, favelado, todo mundo queria que o consumo fosse crime. Hoje que ela é consumida pelas elites, surge um processo hipócrita pela descriminalização, porque não se quer ver as classes média e alta na cadeia, criticou Itagiba, que está há nove meses no comando da pasta.

Antevendo possíveis críticas a suas posições, acrescentou que não diz isso com o intuito de dividir a culpa dos problemas de violência na cidade ou de estigmatizar os usuários de drogas.

- Acho que a sociedade deveria se preocupar mais com as causas da violência. Minha função é atuar sobre as conseqüências. Quando falham a família, a escola, o sistema de saúde, o problema estoura no PM da esquina", desabafou o delegado licenciado da polícia federal, que é formado em Direito e pós-graduado em Ciência Política.


Escrito por Fabrício às 17h26
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O Rio tem duas classes de cariocas

(Xico Vargas - No Mínimo, 22/08/2005)

Fotos: Xico Vargas

Há muito o poder público no Rio de Janeiro dissemina entre os funcionários pagos para servir à população um tipo de cultura orientado para a separação dos cariocas em duas classes: a dos que podem e a dos que pagam. Os que podem geralmente vivem nas favelas. E o que acontece diariamente na cidade mostra que, de fato, podem qualquer coisa. Os demais, que seguram a conta, são também conhecidos como classe média, às vezes elite. Respondem pelo bilhete de ambos. São ainda destinatários das leis, das posturas municipais, dos carnês de impostos e das campanhas educativas. De tempos em tempos o governo os manda economizar algo; carne, viagens ao exterior, combustíveis, energia. Agora, o tema da moda é a água. “Preservar é fundamental”, escreveu João Pedro Figueira, secretário Municipal de Governo, em publicação destinada a milhares de condomínios de classe média alta instalados em quatro bairros da Zona Oeste do Rio.

Por pedregoso e óbvio o texto do doutor Figueira não deve ser comentado, senão pelo que contém de tortuoso e autoritário. “O desperdício residencial é o campeão”, elege às tantas. A partir daí, alinha três parágrafos para transmitir aos mal-educados o método municipal de ter bons modos à torneira. A classe média, alvo da sábia bula, é perdulária determina o secretário. Não sabe escovar os dentes, lavar a louça ou tomar banho. Para os dentes, nada além de um copo d’água, ensina. Pratos e talheres? Ensaboe tudo antes de abrir a torneira. Banho? Não passe de 15 minutos. Está errado o doutor? Na essência, não propriamente. Mas enfiou os pés entre as mãos na fórmula e no endereço. Ganha um mergulho na piscina do Copacabana Palace quem descobrir, em tudo o que o doutor Figueira escreveu até hoje, uma linha de alerta para a desenfreada multiplicação dos lava-jato de automóveis (fotos) nas franjas das favelas cariocas. Sabe de nada o doutor.

Aos que pagam pela água que gastam em casa ele manda economizar. Muito justo. Faz feio, porém, ao fingir que não sabe que há filas diárias de vans e automóveis nos lava-jato. Mais: que cada favela da cidade tem pelo menos dois desses empreendimentos, o que resulta quase dois mil, e que supermercados vendem em 10 pagamentos as bombas que turbinam a água e são alimentadas com energia tomada no poste mais próximo. Como contribuição à ordem urbana, que é sua obrigação, o doutor Figueira posou de sábio e produziu uma bobagem.

Tenta fazer crer que a prefeitura desconhece o que acontece nas favelas cariocas, onde há anos as mangueiras substituíram as vassouras para remover o lixo das vielas ou eliminar a poeira das ruas. “Escovar os dentes com a torneira aberta gasta até 25 litros”, denuncia. Nem como exercício ocorreu-lhe medir a água necessária à lavagem de uma Kombi, por exemplo. As contas que fez, no entanto, fornecem uma pista: em 15 minutos de torneira meio-aberta para lavar a louça, ele diz, somem 243 litros de água pelo ralo. E não se tem notícia de que alguém lave louça com bombas d’água. Mas gastam-se bem mais de 15 minutos para banhar uma van.

Economizar água deveria ser prática saudável de toda a população. Mas quando fecha os olhos para o que rola à volta o doutor Figueira apenas perfila ao lado do pior tipo de homem público; o político que ajuda a semear a baderna urbana para colher votos. Como é jovem, parece apenas que ainda não entendeu o que ocorre na cidade e tomou o caminho do pântano por engano. Se sujasse as solas dos sapatos pelos morros saberia que a maioria das favelas do Rio tem hoje Internet por banda larga, computadores em centenas de casas, barracos de alvenaria com ar-condicionado e milhares de automóveis. Na favela Tijuquinha a prefeitura reservou espaço para estacionamento e os carros já transbordaram para o canteiro central da pista que margeia a favela. Na Rio das Pedras os engarrafamentos diários exigiram obras para criar uma faixa de tráfego direto.

Na Rocinha, em Rio das Pedras e na Maré, como em quase todas as favelas, a maioria das casas está plugada à TV por assinatura. Nesses lugares, como no restante da cidade, as pessoas pagam por esses serviços. Não é nova a descoberta de uma pesquisa da ONG Observatório de Favelas, segundo a qual a maioria dos moradores da Maré queria pagar pelo consumo de luz. Apesar disso, sobrevive no poder público quem acredite que o roubo de água e energia em favela é estratégia de sobrevivência. Pode ser essa a tentação que ronda o secretário do governo.

É bom que saiba, no entanto, que trabalha na assessoria do prefeito César Maia – a algumas dezenas de metros de sua sala - uma das poucas pessoas da administração municipal que conhecem a favelização da cidade pelas entranhas. É a arquiteta Lu Petersen, que entregou às favelas do Rio 21 dos seus 64 anos. É dela um instrutivo livrinho que trata da “evolução urbano-social das favelas do Rio de Janeiro”. Recomenda-se a leitura a funcionários públicos que estiverem em cócegas para dar palpites sobre a vida alheia e a ordem urbana. Das páginas emerge conclusão segundo a qual mexer com populações exige cuidado. Como habituaram-se a não tê-lo, sucessivos governos construíram no Rio de Janeiro o atual desastre: uma cidade que sucumbe às favelas e assentada sobre duas categorias de cidadão.

 

Meu comentário: Excelente reportagem, trata de tema relevante e invisível a maior parte de nossa sociedade. Ele tocou no ponto ao revelar que a lei vale mais para alguns do que para outros. Creio que as autoridades atuais estão mais interessadas em angariar fundos de quem paga (classe média) do que fazer seguir à risca a lei.

Os lava-jatos são apenas a ponta do iceberg. Eu citaria mais uns 10 casos parecidos com o que ele abordou na matéria, entre os quais, as kombis, vans e transportes alternativos que tomaram conta da cidade do Rio como um câncer que se alastra em meio ao caos urbano. Perguntinha básica: será que os motoristas desses veiculos pagam IPVA e impostos rigorosamente em dia? Pagam multas? Em compensação dirigem como loucos, não respeitam a sinalização e conduzem seus veículos com uma irresponsabilidade do tamanho do Brasil. A Guarda Municipal fecha os olhos pra eles (afinal, são numerosos e ótimos currais eleitorais), mas para o cidadão comum, a Guarda persegue e taxa sempre que possivel.

Afinal, alguem tem que pagar a conta.



Escrito por Fabrício às 14h01
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18/08/2005 - 12h57m - O Globo


'Hotel Ruanda' acusa grandes potências pelo massacre de 937 mil pessoas por milícias assassinas

 

RIO - Hotel Rwanda, de Terry George, conta a história de um herói improvável, um homem comum em posição privilegiada num país miserável, inicialmente indiferente à sorte de seus compatriotas até descobrir, em meio a uma grave crise, uma insuspeitada coragem e vocação humanitária, a ponto de arriscar a vida por estranhos. O filme estréia nesta sexta no Brasil.

O cenário é Ruanda, uma ex-colônia belga na África centro-oriental com 8,1 milhões de habitantes, economia agrária e expectativa de vida de 45 anos. Dividida em duas etnias, tutsis (15% da população) e hutus (84%). O ator Don Cheadle, indicado ao Oscar, encarna Paul Rusesabagina, o gerente do hotel de luxo Milles Collines em Kigali,a capital, protagonista de cenas de heroísmo, vendo a morte bem de pertinho várias vezes ao longo do massacre de 100 dias que custou a vida de 937 mil (número oficial da ONU) tutsis e de hutus considerados traidores ou moderados de abril a julho de 1994.

O filme é um violento libelo contra a indiferença das potências colonizadoras e dos Estados Unidos à tragédia num país remoto que não lhes rendia nenhum voto, como diz um personagem. A única presença externa foram os capacetes azuis da ONU, mesmo assim em número mínimo, sem condições de evitar o massacre de homens, mulheres e crianças por gangues armadas de facões comprados da China a 10 centavos cada, uma pechincha, como diz um líder das assassinas milícias hutus.

O extermínio impiedoso das 'baratas tutsis'

O diretor e roteirista Terry George foi à Bélgica para pedir orientação ao verdadeiro Paul Rusesabagina, que vive em Bruxelas como asilado depois de ter salvo a vida de 1.268 pessoas que se abrigaram no seu hotel para fugir da morte. Rodado em favelas da África do Sul utilizando os moradores locais como figurantes, o longa pinta a tragédia com cores vivas, de deixar o espectador com uma descrença terminal da natureza humana.

Don Cheadle perdeu o Oscar de ator principal para Jamie Foxx ("Ray"), mas bem que valia um empate pela magnífica atuação como Paul Rusesabagina. Assistente da gerência e depois gerente do hotel pertencente à empresa aérea belga Sabena, ele circulava nas altas rodas como uma espécie de cortesão de luxo do poder, agradando aos estrangeiros e às autoridades locais, estas últimas com pequenos subornos como uísque de malte puro e charutos Cohiba.

Tinha uma casa confortável no subúrbio, uma bela mulher, Tatiana, vivida magistralmente por Sophie Okonedo, e dois filhos. Tudo isso num período de relativa trégua da violência recorrente entre hutus e tutsis. Mas não por muito tempo.

O assassinato do presidente Juvenal Habyarimana (hutu) em seis de abril de 1994 desencadeia a violência étnica que logo bate na porta de um vizinho de Paul, uma "barata tutsi", na terminologia dos milicianos e militares hutus. A exemplo do personagem do poema de Brecht, Paul diz à mulher que não é com eles e nada pode fazer. Aos poucos, começa a ser com ele.

Um lixo para as grandes potências

Milicianos e militares hutus começam a matar tutsis e, uma noite, ele encontra vários vizinhos em casa, amedrontados. Logo soldados irrompem ameaçando matar todas as ''baratas'', incluindo sua mulher e filhos. Ele compra a vida de todos por 100 mil francos, o início de uma série de artifícios para driblar a truculência, incluindo ligações para membros do governo, para a sede da Sabena em Bruxelas e apelos ao comandante das forças da ONU, coronel Oliver, vivido por Nick Nolte.

Oliver joga vários baldes de água gelada sobre Paul, derrubando sua esperança de uma intervenção da Europa e dos Estados Unidos com frases como "vocês são lixo para as grandes potências". Tropas ocidentais só aparecem para retirar os estrangeiros, deixando os locais à mercê dos facões das milícias Interahamwe (Os que lutam juntos no idioma kinyarwanda).

O Hotel de luxo vai aos poucos se enchendo de refugiados, protegidos da morte pelos subornos aos militares, pela frágil proteção dos capacetes azuis e por pressões do governo francês acionado pelos donos belgas do hotel para proteção de seu patrimônio em Ruanda.

Paul vacila, se desespera diante de cenas como uma estrada coalhada de corpos de homens, mulheres e crianças, mas vai em frente.Hotel Ruanda é um libelo contra a estupidez e a ganância. Um filme que deixa seqüelas na alma do espectador.

 

Meu comentário: Assisti ao filme no ultimo sábado e gostei muito do que vi. O diretor abordou o tema objetivamente. O país citado foi Ruanda, mas poderia ser qualquer republiqueta africana pós-independencia que daria o mesmo efeito: Congo, Mali, Argélia... Vou aguardar o DVD para comprar e rever, se possível, com os luxuosos extras adicionais.



Escrito por Fabrício às 14h29
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A representação do eu na vida cotidiana
Autor(a): Erving Goffman
11 ed. - Petrópolis, RJ - Editora Vozes - 2003 - 233 p.
ISBN: 85.326.0875-2

Tradutor(a): Maria Célia Santos Raposo

Resumo:

Apresentado pela imprensa especializada norte-americana como "uma das mais vigorosas contribuições à psicologia social desta geração" (American Journal of Sociology), o livro de E. Goffman é um profundo estudo sobre o conhecimento de si mesmo pelo homem, tratando do comportamento humano em sua situação social e do modo como aparecemos aos outros. O autor utiliza a metáfora da ação teatral como estrutura de sua exposição: todo homem, em qualquer situação social, apresenta-se diante de seus semelhantes, tenta dirigir e dominar as impressões que possam ter dele, empregando certas técnicas para a sustentação de seu desempenho, tal qual um ator que representa um personagem diante do público. Não se deve pensar, entretanto, que as teorias e conclusões aqui expostas sejam meras generalizações ou apenas deduções que partem de um esquema preestabelecido. E. Goffman observou, pesquisou e estudou profundamente o comportamento do indivíduo em diversas regiões e comunidades. Esta obra de psicologia social estuda profundamente o conhecimento que o homem tem de si mesmo. Aborda o comportamento humano em sociedade e sua forma de manifestação. Sem sair de seu rigor científico o autor serve-se de uma linguagem teatral, como estrutura de exposição dos conteúdos, pois o homem em sociedade sempre utiliza formas de representação para se mostrar a seus semelhantes.



Escrito por Fabrício às 10h57
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AMENIDADES

     

Itens fundamentais da farmacopéia afetiva do brasileiro:

- Um Minuto (para dor de dentes);
- Emplastro Sabiá;
- Xarope de Alcatrão de São João;
- Creme de Alface Brilhante;
- Bromil;
- Creme Rugol (“as rosas desabrocham com a luz do sol, e a beleza das mulheres com o Creme Rugol”);
- Pastilhas Valda;
- Gumex;
- Glostora;
- Xarope Vick;
- Sardalina;
- Antisardina;
- Colírio Moura Brasil (“Duas gotas, dois minutos, dois olhos claros e brilhantes”);
- Groselha Milani;
-
 Cafiaspirina;
- Vinho Reconstituinte Silva Araújo;
- Alivene (“Não se coce, é feio coçar!”);
- Vick Vaporub;
- Iparema (“O amargo que cura”);
- Sal de Fructa Eno;
Leite de Magnésia Philips.



Escrito por Fabrício às 11h41
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"Ei, você aí.. me dá um dinheiro aí... me dá um dinheiro aí..."

Lista das pessoas que fizeram saques na conta da SMP&B (Marcos Valério):

* Sócia do publicitário Duda Mendonça
** Irmão do ex-presidente do PT José Genoino
*** Tesoureiro informal do PTB
**** Presidente do PTB que morreu em acidente aéreo
***** Secretário-executivo do ministro Ciro Gomes (Integração Nacional)

 (A tabela acima foi feita pelo UOL e estava no Blog do Ricardo Noblat. Limitei-me a copiá-la.)



Escrito por Fabrício às 15h07
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(O Globo, 31/07/2005)

Aborto legalizado reduziria crimes no Brasil


Helena Celestino

Correspondente - O Globo

NOVA YORK. Steven Levitt é um economista bem pouco ortodoxo, apesar de professor da Universidade de Chicago, principal núcleo acadêmico do liberalismo econômico. Autor de “Freakonomics”, um best-seller publicado no Brasil pela editora Campus/Elsevier e um dos livros mais vendidos nos EUA, Levitt tem teses que desafiam o senso comum, como: campanhas eleitorais milionárias fazem pouquíssima diferença na votação de um candidato e piscinas são mais perigosas do que armas para crianças de menos de tês anos. Tudo provado por montes de dados. A mais polêmica de suas teses é a de que a legalização do aborto foi a responsável pela brutal queda da criminalidade em Nova York: “Se o aborto for legal, barato e ao alcance de todos, eu acho que os crimes diminuiriam sensivelmente no Brasil”, diz. Ele pediu para a entrevista ser feita por e-mail porque está de férias e seria mais fácil driblar a vigilância da mulher para não deixá-lo trabalhar. Levitt, 37 anos, que recebeu o prêmio de melhor economista com menos de 40 anos dado pela Universidade de Chicago a cada dois anos, recusa-se a analisar fatos como o efeito da queda do dólar: “Estaria só inventando”.

Uma de suas teses é de que o crime em Nova York diminuiu por causa da legalização do aborto. Essa constatação tem valor universal? Se o aborto fosse legal no Brasil, a violência seria muito menor?

STEVEN LEVITT: Se o aborto for legal, barato e ao alcance de todos, eu acho que os crimes iriam diminuir sensivelmente no Brasil. A ligação entre crime e aborto também é verdadeira em outros lugares que pesquisamos, como o Canadá e a Austrália.

O senhor indica que crescimento econômico não reduz estatísticas dos crimes. Acha que a recuperação da economia no Brasil não teria nenhum efeito sobre a violência?

LEVITT: As evidências em um grande número de países mostram que o crescimento econômico não tem relação com a violência e só é vagamente ligada a crimes contra a propriedade. Crescimento não leva o país a se livrar da criminalidade. Relevante para o Brasil é o fato de que a desigualdade econômica tem uma relação estreita com estatísticas de criminalidade e o Brasil tem uma das distribuições de renda mais injustas do mundo.

O senhor usa o exemplo do corretor de imóvel , que sempre vende sua casa por preços maiores do que o comum dos mortais, para mostrar que a Internet está fazendo este tipo de vantagem diminuir. Existem outros campos onde isso também é verdade?

LEVITT: Em inúmeras áreas. Os preços de seguro de todos os tipos despencaram nos Estados Unidos depois que sites na Internet fazem a comparação de preços de todos os produtos das seguradoras. Agências de viagem são quase coisa do passado depois que as reservas passaram a ser feitas por computador. Os exemplos são inúmeros e os consumidores, sem dúvida, vêm se beneficiando disso.

Usando os seus métodos de análise no “Freakonomics”, como explicaria o fenômeno Bush?

LEVITT: Que fenômeno Bush? As eleições presidenciais sempre foram muito apertadas. Uma pequena mudança nos votos não teria permitido a eleição de Bush nem em 2000 nem em 2004.

O senso comum diz que dinheiro pode comprar uma eleição e, baseado nisso muitos casos de financiamento ilegal de campanha e de suborno aconteceram pelo mundo, especialmente na América Latina. O senhor, que não acredita na influência do dinheiro na votação, diria que tudo isso foi inútil?
LEVITT: Minha tese se baseia na experiência americana. É difícil “comprar” votos através de campanhas publicitárias, os candidatos que gastam muito dinheiro nas campanhas conseguem só uma pequena percentagem de votos através desse meio. Mas roubar abertamente votos deve ser uma maneira mais fácil de ganhar eleição se você não for descoberto fraudando cédulas ou máquinas, subornando a mídia etc.

No livro, o senhor dá vários exemplos em que o senso comum está errado: a relação do dinheiro com a votação, tolerância zero como meio de reduzir crimes ou o fato de que piscinas matam mais crianças do que armas. O senhor tem exemplos desse tipo em relação a economia mundial?

LEVITT: Eu honestamente não conheço muito sobre a economia global. Uma coisa que me impressiona é como os americanos ficam irritados pelo fato de os operários de países em desenvolvimento trabalharem em condições difíceis e terem salários baixos. O que os americanos parecem esquecer é que as pessoas desses países estão indo em massa para as cidades com o objetivo de conseguir exatamente esses trabalhos considerados horrorosos nos Estados Unidos. O fato é que esses trabalhos parecem melhores do que a agricultura em países em desenvolvimento. É difícil entender como a pressão para proibir operários de trabalhar sob condições difíceis faria as pessoas viverem melhor..

Como o senhor criou sua teoria dos Freakonomics?

LEVITT: Eu simplesmente venho trabalhando nisso há dez anos. Eu penso como economista, mas faço perguntas diferentes da maioria dos economistas. Freakonomics é só um nome que mostra para as pessoas nas livrarias de que não se trata de um livro parecido com a maioria dos livros de economia. É um livro para as pessoas se divertirem com ele, embora seja um livro de economia. Não estamos criando uma nova teoria econômica.

O seu livro é um enorme sucesso popular, mas como foi recebido pelos economistas ditos sérios?

LEVITT: Muitos gostam do livro, porque percebem que ele pode levar mais estudantes a estudarem Economia, o que aumentaria a procura por professores de economia e, portanto, nossos salários também subiriam num curto prazo. Mas, como era previsível, alguns economistas não gostaram do livro..

Como é sua relação com os economistas mais ortodoxos?

LEVITT: Eu almoço todo dia com alguns dos maiores economistas do mundo na Universidade de Chicago, incluindo o brasileiro José Scheinkman, que era um verdadeiro mentor para mim até há alguns anos, quando ele saiu de Chicago para a Universidade de Princeton. Os economistas me agüentam. Eles ainda me ensinam algo todos os dias.

É possível fazer perguntas convencionais para um economista não convencional? Por exemplo, sobre a situação da economia americana e como as medidas para impedir uma queda maior do dólar poderiam afetar a economia mundial?

LEVITT: Se eu tentasse responder a estas perguntas, estaria só inventando.



Escrito por Fabrício às 01h51
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Excelente esse texto do Elio Gaspari publicado no Globo e na Folha de hoje (27/07/2005):

A coligação PT-PSDB-PFL

ELIO GASPARI

   

É dura a vida da choldra. O comissariado petista é apanhado comendo com a mão, guardando dólares na cueca, e o presidente da República resolve ensinar aos cretinos que “o PT fez, do ponto de vista eleitoral, o que é feito no Brasil sistematicamente”. Ou seja, fizemos o que os outros fizeram. Mama quem pode e obedece quem tem juízo.

Passam uns dias e a patuléia fica sabendo que o deputado Roberto Brant, ex-ministro do tucanato aninhado no PFL, foi beneficiário de uma valeriana de R$ 150 mil. O doutor recebeu a pronta e irrestrita solidariedade do seu partido. Nada de novo, em 1999 o pefelê levou seis meses para expulsar o deputado Hildebrando Paschoal, aquele cujos sequazes esquartejavam as vítimas com serras elétricas. Brant foi para o ataque: “Quem não tiver recebido dinheiro não contabilizado, que atire a primeira pedra.”

A patuléia aprendeu duas lições:

O PT fez o que todo mundo faz.

O PFL faz o que todo mundo faz e ninguém tem autoridade para criticar o doutor Brant.

O terceiro ensinamento veio com a revelação de que em 1998 a coligação que batalhava pela reeleição do governador mineiro Eduardo Azeredo foi bafejada por um empréstimo valeriano de R$ 11,7 milhões, tomado no Banco Rural, igualzinho ao de 2003 para o PT. Azeredo é hoje um grão-tucano, presidente do PSDB. Respondeu à denúncia com uma aula: “Passaram-se três eleições, não faz sentido discutir uma campanha de 1998.”

Ou seja: malfeitoria de tucano prescreve em sete anos e “não faz sentido” nem lembrar o assunto.

Lula, Brant e Azeredo comportam-se como se fossem marqueses numa ilha tropical, fazendo à patuléia o favor de governá-la. A corrupção eleitoral não os diferencia. Pelo contrário, os associa. Juntam-se na cobiça do andar de cima e no descaso pelo andar de baixo.

Eles não generalizam a prática da malfeitoria com o propósito de combatê-la, mas para impô-la. Lula, Brant e Azeredo tratam as maracutaias contábeis como se elas fossem um acidente geográfico: o Pão de Açúcar fica à esquerda de quem entra na barra e minha prestação de contas é uma fantasia aritmética. Tratam o assunto com a arrogância de coronéis do sertão, mas falta-lhes a coragem para dizer essas coisas durante as campanhas eleitorais.

Se o dinheiro que foi para as cuecas petistas tivesse saído do bolso de Brant, ou de Azeredo, tudo bem. Da mesma forma, se os jabaculês do PSDB e do PFL viessem da caixa do Delúbio, tudo se resumiria a uma ação entre amigos. O problema é que todo esse dinheiro, até o último centavo, tem uma só origem: a bolsa da choldra, e ela paga impostos europeus por serviços africanos.

Lula, Brant e Azeredo poderiam percorrer o Brasil como uma trinca caipira, explicando as virtudes políticas de seus partidos e as semelhanças financeiras de seus costumes.



Escrito por Fabrício às 17h49
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26/07/2005

"Telechávez" nasce para enfrentar a "Telebush"

Canal de TV financiado por Caracas pretende desafiar americanos


CARACAS, VENEZUELA - " O presidente venezuelano, Hugo Chávez, não esteve presente neste domingo (24/07) ao ato de lançamento da Televisora del Sur --Telesur--, mas falou por telefone. Embora não costume faltar a esse tipo de cerimônia, ele quis assim tirar a razão dos que se referem ao novo canal em língua castelhana como "Telechávez".

A tarefa não será simples, pois a Telesur é idéia sua; a maior parte do dinheiro foi investida pela Venezuela; os estúdios se concentram em Caracas; foi ao ar no dia do aniversário de Simon Bolívar; e a linha editorial é o reflexo do discurso chavista: antiimperialismo, antineoliberalismo e permanente questionamento dos Estados Unidos.

O diretor da Telesur, o jornalista uruguaio Aram Aharoniam, afirma que Chávez foi muito respeitoso da pluralidade e da independência do canal, que no início fará transmissões durante quatro horas por dia.

"Vou propor a ele [Chávez] que faça um programa semanal de uma hora, no qual falará de qualquer tema que não seja político e que se chamará Telechávez, para que exista algo com esse nome e deixem de brincar com isso."

Na aventura da Telesur embarcaram até agora Cuba, Argentina, Brasil e Uruguai, mas o objetivo final é que todos os países da América Latina participem, pois a emissora deve servir como alternativa aos canais americanos e de outros países desenvolvidos que dominaram a região.

A Telesur já conta com a rejeição dos Estados Unidos. A Câmara de Deputados aprovou na semana passada uma emenda que permitirá que Washington crie emissoras de rádio e televisão para se contrapor à Telesur, uma iniciativa que seria semelhante às da Rádio Martí e TV Martí, que tentam há muitos anos penetrar o espectro radioelétrico de Cuba a partir da Flórida, com mensagens contrárias ao governo de Fidel Castro.

O promotor da emenda, o deputado republicano Connie Mack, explicou que a Telesur "é uma ameaça para os Estados Unidos porque tenta minar o equilíbrio de poder no hemisfério ocidental".

"Ainda não tivemos notícias da Telebush", brincou Chávez em sua intervenção telefônica. "Sabemos que vão nos mandar algumas ondas para neutralizar a Telesur, mas até agora não mandaram nada. O primeiro gol nós é que marcamos."

Em uma declaração anterior, Chávez havia qualificado a decisão como uma "ação imperialista maluca".

Em suas primeiras horas de vida, a Telesur transmitiu trechos de um concerto de rock na base aérea de La Carlota, em Caracas, ao qual assistiram mais de 150 mil pessoas. Os convidados estrangeiros --Molotov, Elefante e Elvis Crespo-- dividiram o palco com os venezuelanos Dimensión Latina, Desorden Público, Tambor Urbano, Grupo Madera e Reina Lucero.

Quase todas as imagens difundidas eram de produção própria, salvo as procedentes de outras regiões do mundo cobertas pela agência Reuters.

"Ainda não temos convênio com a Al Jazeera, mas estamos dispostos a contratar qualquer serviço informativo. Nos interessam as agências do sul, mas poderemos ter acordos inclusive com a Voz da América, o que já propus", disse Aharoniam.

Fora o concerto, a Telesur transmitiu no domingo uma reportagem sobre a dura vida dos deslocados colombianos que vivem em barracos na periferia de Bogotá e outra sobre os dirigentes rurais venezuelanos que foram assassinados por pistoleiros supostamente contratados por pecuaristas que se negam a ceder parte de suas terras aos agricultores.

No capítulo de curtas metragens apresentou um Chaplin venezuelano que vive suas peripécias mudas e em branco e preto com personagens da Caracas atual: travestis, coletores de alumínio e crianças abandonadas, uma realidade que os partidários do Telechávez não querem ver na tela porque não é exatamente boa propaganda."



Escrito por Fabrício às 10h37
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